
Por:
Clara Tavares
Eduarda Galdino
Kauany Mendonça
Um homem com um balde de água avermelhada despeja o líquido no que seria uma espécie de ralo, vazando uma parte pelo chão. Ele volta para o corredor de venda de carnes, com o balde vazio. O sangue animal misturado com água agora é uma poça no caminho dos consumidores. Essa é uma cena que pode ser vista caso você esteja sentado na escada de uma das saídas do Mercado do Pirajá, em Juazeiro do Norte.
Quem frequenta o Centro de Abastecimento Vereador Francisco Vieira da Silva, conhecido como Mercado do Pirajá, percebe que o fluxo de pessoas é intenso, os corredores não possuem um padrão de tamanho e as opções de produtos variam em cada canto do prédio.

O sistema de esgotamento para os comércios que lidam com produtos perecíveis é ineficiente, fazendo com que resíduos como os das carnes não sejam tratados da forma ideal. Nas ruas, as vias para escoamento de água são entupidas de frutas, legumes e verduras descartados. Segundo uma permissionária do mercado, quando chove, o acúmulo de lixo e esgoto se torna mais evidente. Para os permissionários que estão no limite da rua, a chuva é o presságio de que um dia de trabalho poderá ser perdido.
De acordo com dados de 2023 do Trata Brasil, apenas 29,9% da população do Ceará tinha acesso à coleta de esgoto. Esse número é menor em Juazeiro do Norte, onde dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), apontam que apenas 27,4% da população tem acesso a serviços de esgotamento sanitário.
Ainda de acordo com a SINISA o município gera cerca de 11.543,8 mil m³ de esgoto, número equivalente a 4.617 piscinas olímpicas.
O Mercado do Pirajá foi inaugurado na década de 1990 e é um dos principais polos comerciais da cidade de Juazeiro do Norte. Ele fica localizado no bairro Pirajá, com acessos pela avenida Ailton Gomes e ruas adjacentes ao bairro. De acordo com a Ambiental Ceará, empresa responsável pelo esgotamento sanitário na região Metropolitana do Cariri, 93% do bairro já possui cobertura de esgoto, maior porcentagem de todo o município. Apesar do dado expressivo do entorno, o Mercado do Pirajá não possui ligação com a malha de esgotamento sanitário.

Vista do Mercado do Pirajá de cima. Fonte: Google Earth


Procurada pela reportagem, a Ambiental Ceará informou que o Mercado não é ligado à malha de tratamento municipal. Apesar do grande fluxo de pessoas e resíduos, a empresa considera a estrutura como equivalente a uma “residência individual” e, o “cidadão responsável", no caso a Prefeitura, é inteiramente encarregada pelo esgoto produzido.
Atualmente, todo o fluxo de esgoto do mercado é descartado e tratado em fossas sépticas e sumidouros, de acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura de Juazeiro do Norte (Seinfra). Cada box possui registro de consumo individualizado.


O médico sanitarista Álvaro Madeira, especialista em medicina preventiva e social e administração de saúde, explica que a fossa séptica usada no mercado é uma alternativa, mas precisa ser limpa e avaliada periodicamente para ser eficaz. A desobstrução das fossas do mercado é feita pela prefeitura municipal com frequência, mas ainda não é suficiente, afirma a própria Seinfra. “Em tese, se há uma construção adequada, seguindo as normas, você diminuiria o risco. Não chega a substituir o esgotamento sanitário bem construído, bem estruturado”, afirma o especialista, que também coordena o curso de medicina do Centro Universitário Unileão.
O saneamento básico se estrutura em quatro pilares: abastecimento de água potável; coleta, transporte e tratamento do esgoto sanitário; manejo adequado dos resíduos sólidos (lixo); drenagem e manejo de águas pluviais. A fossa séptica atende somente um dos pilares, a de coleta e tratamento de esgoto, explica o médico sanitarista.
De acordo com Antonio Francerrilton, que além de consumidor há quarenta anos é também estudante de saneamento ambiental, o mercado não possui estrutura adequada: “Juazeiro tem águas fluviais, e esses sumidouros são contaminados, esse não é o manejo ideal”. A equipe do DataJor Cariri tentou contato com o prefeito Gledson Bezerra, que não quis se pronunciar sobre o assunto.
Segundo o médico, a falta de saneamento é uma grave ameaça à saúde pública por conta da facilidade da proliferação de doenças. “O esgoto a céu aberto em tese é um local muito fértil à possibilidade de proliferação de agentes patógenos, bactérias, fungos, vírus, roedores, e mosquitos, que são vetores de doenças. Então, a população passa a estar em risco e tem que haver uma intervenção imediata".
Segundo Alexandra Costa, coordenadora de mercados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romaria (SEDETUR), a breve experiência do mercado sob gestão de uma empresa privada ocasionou a superlotação da estrutura, uma vez que os espaços internos foram vendidos para mais permissionários do que o espaço permitia. A gestora explica que a lotação é um agravante para os problemas de infraestrutura: “Uma fiação muito antiga, um prédio muito antigo. Por estar com excesso de comerciantes, de box, de espaços cedidos, não tem como a gente fazer uma pequena reforma, uma melhoria, com acessibilidade, [combate a] incêndio, essas precauções, não tem como a gente fazer hoje.”
Permissionários e a realidade do mercado

A solução encontrada pela prefeitura foi propor um projeto de reforma geral do mercado, que nunca passou por intervenções nas últimas três décadas. Porém, segundo Alexandra, durante o processo de recadastramento de permissionários a proposta de reforma foi apresentada de forma individual e rejeitada pela maioria. “Ou seja, mesmo sem audiência pública, a gente teve uma visão de que praticamente 80% dos permissionários não aceitam a reforma”, afirma a gestora. Mesmo diante da dificuldade, a prefeitura mantém a intenção de realizar uma audiência pública com os comerciantes.



A incerteza sobre o futuro do Mercado do Pirajá paira entre os permissionários. Em entrevista ao DataJor Cariri, a principal preocupação relatada é o medo de perder o sustento durante as obras de revitalização. A reportagem conversou com diversos comerciantes que, com receio, não quiseram se identificar. "Pra onde a gente vai? Se eles deram o prazo de um ano, eles fazem em um ano?", questiona um dos comerciantes. O temor é presente: para muitos, a renda do dia é essencial para a sobrevivência. "Tem gente que, se não vier trabalhar hoje, não come amanhã", desabafa um dos entrevistados.

Dentro do mercado trabalham 744 permissionários.
No box de verduras, pai e filho guardam histórias e contam perspectivas diferentes sobre a reforma do mercado. O pai, que trabalha no local desde sua fundação, reforça seu vínculo com o lugar. Já o filho, relata que foram apresentadas propostas de melhorias pontuais, como instalações elétricas, hidráulicas e na pintura, mas não foram aceitas pelo prefeito.
Entre os demais permissionários, os relatos também divergem: alguns afirmam não terem sido consultados, sabendo das mudanças apenas por terceiros; outros, reconhecidos como lideranças ou "cabeças" dentro do mercado, confirmam que foram, sim, procurados para discussões.
Quando questionados sobre a estrutura do mercado, a palavra recorrente foi “descaso”. De acordo com uma entrevistada, “entra gerente, sai gerente dizendo que vai mudar tudo, passa 15 dias não tem nada”. Muitos dos permissionários entrevistados alegaram temer a segurança dentro dos boxes, de acordo com eles, o mercado estaria virando uma “cracolândia” em alguns pontos, “ficamos aqui, correndo risco de vida”.
Durante visita ao mercado, a equipe de reportagem ouviu de permissionários que não há mais uma associação que os represente, embora uma lei municipal de 2023 reconheça oficialmente a Associação dos Permissionários do Mercado do Pirajá (APMP).
A gota d'água
Um mercado como o do Pirajá recebe muitas pessoas diariamente, mas não tem estrutura adequada para isso. Além do saneamento básico e do esgoto, permissionários e consumidores relataram que no local falta organização, higiene, segurança e estrutura e, principalmente, há uma condição precária em relação ao esgoto a céu aberto próximo a alimentos. A palavra “péssimo” foi utilizada diversas vezes pelos consumidores para definir a estrutura do local.
Luciano, consumidor do mercado desde criança, se queixa do local: “Poderia ser melhorado, acho um pouco de descaso, né? Poderia ser bem mais organizado até porque é um lugar que vende frutas e tem esse mau cheiro… mas como não tem muitas opções, tem que comprar aqui.”
Em um corredor se encontra carne e a água de esgoto escorrendo no chão. Coisas que deveriam ser distintas se misturam.
Esses relatos mostram a precariedade que se encontra o mercado do Pirajá hoje. Isso evidencia os problemas e ressalta que o espaço não atende as necessidades básicas de quem trabalha e consome os produtos do local.
Juazeiro é carente demais de saneamento…o mercado aqui não tem estrutura nenhuma.
Antonio Francerrilton, estudante de saneamento e consumidor do mercado
Com isso, permissionários e consumidores aguardam que sejam tomadas medidas efetivas pelo poder público que garantam segurança sanitária para a população.
Reforma administrativa e deserto de dados
A equipe DataJor Cariri apurou que, até a publicação desta reportagem, não constam informações sobre o Mercado do Pirajá no Portal da Transparência da prefeitura de Juazeiro do Norte. Em abril de 2025, a prefeitura passou por uma reforma administrativa e a gestão do mercados e feiras públicas de Juazeiro do Norte foi transferida da até então Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMASP) para a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação (SETUR), que se tornaria Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romaria (SEDETUR) no fim da reestruturação. A justificativa para a transferência de gestão se deu pela influência dos equipamentos públicos na economia local.
Alexandra Costa explica que a prestação de contas e gastos para os permissionários era feita através de um link disponibilizado pela SEMASP, agora Secretaria Municipal de Agricultura, Meio Ambiente e Serviços Públicos (SEAMASP), que foi desativado durante a reforma administrativa. A expectativa é que o Portal da Transparência seja atualizado em 2026.

Créditos das fotos: Clara Tavares, Camila Lavine, Pedro Emanuel, Eduarda Galdino e Kauany Mendonça
Equipe de reportagem
Clara Tavares
Estudante do 8° semestre de Jornalismo

Eduarda Galdino
Estudante do 6° semestre de Jornalismo

Kauany Mendonça
Estudante do 6° semestre de Jornalismo







